Coube ao cientista quixeramobinense Darlan da Silva Cândido analisar o material e decifrar os caminhos percorridos pelo vírus. Foto: divulgação

O menino que começou a estudar na escolinha da tia, porque reduzia as despesas da família de Quixeramobim, no meio do sertão do Ceará, virou um cientista do mundo. Saindo da adolescência, Darlan da Silva Cândido foi fazer a faculdade de Farmácia na Universidade Federal, em Fortaleza, porque o pai faleceu e a mãe não podia bancar os estudos particulares. Achava que ia voltar para a cidade natal logo e seguir a vida como farmacêutico. Já seria uma grande meta, mas a vida de imprevisões o lançou para mais longe e ele foi indo. O rapaz já é um cientista do mundo todo.

Em São Paulo, que já era muito maior do que o que tinha imaginado, aproximou-se do estudo de mazelas como zika, chikungunya, dengue e febre amarela. Virou mestre em análise de arboviroses, doenças transmitidas por mosquitos. O inimigo era ainda menor e o mundo e a curiosidade maiores. Esse trabalho o ajudou num feito para os dias atuais de pandemia. Com o sequenciamento do genoma do coronavírus quebrado em apenas 48 horas por cientistas brasileiros, coube a Darlan analisar o material e decifrar os caminhos percorridos pelo Sars-Cov-2, do que estava disseminado pelo mundo para as linhagens que se espalharam dentro do território brasileiro. Foram três cepas, uma delas específica dentro do Ceará.

Seu feito foi publicado na edição de 23 de julho da respeitada revista Science. O trabalho, que levaria um ano e meio, em média, foi desenvolvido em quatro meses, dada a nova demanda de estudos científicos estabelecida pela pandemia. Cearense, orgulhoso de ser de Quixeramobim como diz, aluno de universidade pública, ele agora é um cientista brasileiro ajudando a humanidade a desvendar o vírus mais letal já descoberto. Depois que concluir o doutorado em Oxford, na Inglaterra, garante que quer voltar ao seu país. Para devolver em ciência o que aprendeu – mesmo que já esteja ajudando com as descobertas atuais tão importantes.

Como era sua vida em Quixeramobim e como você migrou para a pesquisa científica fora do país?

Darlan Cândido – (Risos) É uma história meio longa, vou tentar resumir. O que costumo falar é que nada na minha vida foi muito planejado. Acho que é uma característica minha, sempre levei tudo na esportiva, quase na brincadeira. Eu morei em Quixeramobim até meus 17 anos. Tive uma infância muito boa. Tive muita sorte porque a minha família, meus pais, eles não tinham muito dinheiro, mas uma das minhas tias tinha uma escolinha na época – agora já está maior – e eu estudava lá. Tive a sorte de ter uma educação particular no ensino básico. Continuei nessa escolinha, depois passei pra outra escola particular na minha cidade. Recebendo bolsa porque meu tio tinha três filhos na mesma escola, então tinham sempre esses fatores que permitiam eu ter uma educação um pouco melhor. Eu com 15 anos, meu pai faleceu, e até meus 15 anos a ideia era que eu faria faculdade na Universidade Católica em Quixadá. Me formaria em Farmácia e voltaria para Quixeramobim para ser farmacêutico. Mas quando meu pai faleceu minha mãe não tinha condições de pagar uma faculdade pra mim. Com meu pai já seria difícil, então tornou-se ainda mais importante essa questão de que eu teria que passar numa universidade pública, na Federal. Com esse esforço extra, eu consegui, graças a Deus, passar na UFC, em Farmácia, e comecei a minha jornada em Fortaleza. Um ano e meio depois que meu pai falece eu chego em Fortaleza, que pra mim já era outra realidade. Eu tinha ido para Fortaleza algumas vezes, para a casa da minha madrinha, mas não tinha essa realidade de pegar ônibus todo dia. Coisas simples, mas para quem mora no Interior é completamente diferente. Isso já abriu meus horizontes muito. Eu estava na Federal, com o pessoal de Fortaleza, foi uma etapa a mais na minha vida, de crescimento. Dois anos depois, o governo brasileiro libera o projeto Ciência Sem Fronteiras, que eu falo em todas as entrevistas, foi fundamental pra mim. Eu sei que não estaria na Inglaterra sem o Ciência Sem Fronteiras. E eu passei um ano e meio nos Estados Unidos fazendo Farmácia e depois fazendo pesquisa com doença de Chagas, que era o que eu já tinha começado a fazer na Federal do Ceará. A UFC abre as minhas portas para a pesquisa. Isso pra mim foi extremamente importante. Eu devo muita coisa aos meus professores da UFC. Volto dos Estados Unidos para a UFC já com uma outra cabeça, de que Fortaleza, Ceará, já não eram mais aquele meu único espaço, que podia ir mais longe se eu quisesse. Então decido fazer meu mestrado na Universidade de São Paulo (USP), que pra mim também já foi outro salto imenso, sair de Fortaleza, ir morar em São Paulo. Fiquei dois anos e meio fazendo meu mestrado na USP, no Instituto do Coração, ainda trabalhando com doença de Chagas. E isso me trouxe mais uma paixão, de poder estudar o coração. Porque doença de chagas, umas das complicações mais importantes é a insuficiência cardíaca. Em São Paulo eu estudava exatamente como que a insuficiência cardíaca acontece no paciente com a doença de chagas. Nesse momento que decido que eu queria estudar mais do coração e que eu queria vir fazer isso fora do Brasil. Acabo encontrando um orientador aqui na Universidade de Oxford. É nesse momento que eu venho pra cá, com o projeto que eu queria, a bolsa e o orientador que eu queria, e eu estava extremamente infeliz com o que eu fazia.

OP – Mesmo com todos esses saltos profissionais e pessoais e você estava buscando mais alguma coisa.

Darlan – Na verdade, como falei, sempre fiz tudo no automático. E foi sempre assim. Quando cheguei aqui, percebi que a pessoa que tinha decidido que iria trabalhar com isso já tinha mudado (o estudo). Porque o processo para Oxford começa dois anos antes de você chegar aqui. Pra mim foi muito difícil porque eu nunca voltei atrás nas minhas decisões. Mas tive que admitir, fiz uma escolha que não foi a melhor pra mim. Anteriormente parecia, agora não era mais. E eu gosto de falar isso para mostrar para as pessoas que não é tudo bonitinho como parece. Aí, muito por acaso eu encontro meu orientador atual, o Nuno (Farias, pesquisador português, pesquisador de doenças infecciosas de origem tropical), depois de um momento muito difícil pra mim, aceitar que ia ter que mudar. Estava aqui e não podia estar infeliz com tudo o que havia conseguido. Aí entro nessa área de estudar surtos epidêmicos no Brasil. E estudo arbovírus: zika, chikungunya, dengue, febre amarela. Tudo aquilo que os mosquitos Aedes no Brasil transmitem. Aí realmente me reencontro nessa área, fico feliz de estar usando meu país como pesquisa. A partir do momento que adquiro essas habilidades, esse conhecimento para essa área, é quando chega a pandemia de coronavírus no Brasil e consigo ajudar nessa resposta. É mais ou menos essa a história, ficou um pouco longa (risos).

A pesquisa

OP – E vocês usaram essa experiência do estudo com as arboviroses para trabalhar o sequenciamento do genoma do Sars-CoV-2. Queria que você explicasse isso e como conseguiram decifrar o genoma do coronavírus em 48 horas.

Darlan – Justamente por falar da minha história, mostrar que é um caminho longo para estar onde estou, a mesma coisa é com a pesquisa. A gente só estava preparado para fazer isso em 48 horas porque o nosso grupo aqui em Oxford e aí no Brasil, nossa colaboração com o curso de Medicina Tropical da USP, já vem acontecendo há cinco anos. Desde 2016, desde a epidemia de zika no Brasil, que uma nova tecnologia de sequenciamento foi trazida pela Universidade de Oxford para o Brasil e começamos a fazer esse sequenciamento no Brasil. Na época eu não fazia parte do grupo ainda, mas nosso grupo de pesquisa começou a fazer isso, sequenciou amostras de zika do Nordeste brasileiro, viajando em um micro-ônibus, de capital a capital. Nos anos seguintes essa tecnologia foi sendo aprimorada nas epidemias de chikungunya, dengue, febre amarela e trabalhando muito para tornar o custo mais barato e a tecnologia mais rápida. Isso a gente deve muito ao pessoal de São Paulo. Ingra Morales, Jaqueline Goes (pesquisadoras) trabalharam muito no desenvolvimento das técnicas. Quando o Sars-CoV-2 começou a virar um problema no início deste ano, e percebemos que isso iria chegar ao Brasil, nós já entramos em contato com o grupo lá (na USP) e todo mundo já estava preparado para tentar sequenciar. Nós tivemos muita sorte. Quando os primeiros casos foram detectados, nosso grupo foi contatado. Em 48 horas do diagnóstico, o pessoal em São Paulo conseguiu fazer o sequenciamento e a gente conseguiu fazer as análises dos genomas aqui em Oxford. Eu não estou no Brasil, então não participei diretamente do sequenciamento, apesar de ser uma técnica que eu faço também, aprendi com o pessoal em São Paulo. Mas eu participei do segundo momento, que é justamente o das análises. A gente fez sequenciamento: o que a gente consegue concluir com isso? Que informações a gente consegue tirar desse sequenciamento? Porque o sequenciamento, por ele somente, não traz tanta informação assim. São as análises que ajudam.

OP – Você fez a interpretação, a leitura do que foi visto no sequenciamento. É lá que vocês encontraram a tese de que as medidas de isolamento adotadas foram importantes? Que respostas surgiram naquele momento?

Darlan – No momento inicial foi o sequenciamento de dois pacientes apenas, de São Paulo. O que a gente conseguiu nessas duas sequências do vírus é que estavam realmente chegando no Brasil vindas da Europa. Como eram poucas sequências, foi praticamente tudo que a gente podia concluir: que as introduções estavam chegando da Europa. Mas isso era importante para a gente estabelecer o contexto epidemiológico: de onde o vírus está vindo e por onde está entrando.

OP – Em seguida vocês trabalham com 427 amostras. Esse material foi analisado no Brasil?

Darlan – Foi todo analisado no Brasil. Depois do sequenciamento inicial fizemos parceria com laboratórios de diagnósticos no Brasil, também com o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Foi montada uma logística imensa, para a gente poder trazer essas amostras para os laboratórios de sequenciamento de São Paulo e do Rio de Janeiro, porque nesse segundo momento outras universidades passaram a ajudar no sequenciamento. A gente teve UFRJ, UFMG, Unicamp. Foi um mutirão de pessoas, uma força-tarefa para conseguir esses 427. São 427 genomas que a gente sequenciou que estavam com qualidade suficiente para a gente fazer análise, mas na verdade a gente sequenciou bem mais amostras do que isso.

OP – Por que o sequenciamento do genoma é importante nesse trabalho de tentar rastrear a origem do coronavírus?

Darlan – Uma forma mais simples de a gente entender, é como se o genoma do vírus, a identidade do vírus, ela fosse com o tempo adquirindo marcas, como se o vírus fosse ficando mais velho. Essas marcas são as mutações. É a partir dessas marcas que a gente consegue reconstruir a história dele. Quando falo reconstruir, foi isso que a gente fez no artigo publicado na revista Science. A gente reconstrói por onde o vírus passou e quando ele passou. Você reconstrói todo o movimento do vírus dentro do país. Esse é um dos motivos importantes para se fazer o sequenciamento, porque consigo reconstruir a história da epidemia no país e, uma vez que eu reconstruo essa história eu aprendo com ela. Então eu sei que numa próxima epidemia semelhante a essa, do tipo respiratória, esse é o provável caminho que o vírus vai fazer no país. Então já sei onde preciso melhorar a testagem, já sei as portas de entrada principais, quanto tempo demora para se espalhar. Essa é a parte que a gente chama de epidemiologia genômica. A gente não trabalha mais só com os casos notificados em si, mas também com o vírus e com a informação que ele passa pra gente, que é muito rica.

OP – O que mais de específico você conseguiram descobrir e quando o Ceará entra com uma história a parte nessa pesquisa?

Darlan – É importante pontuar que o trabalho foi feito com amostras colhidas até 30 de abril. Isso mostra que a história que estou contando é a história dos dois primeiros meses da pandemia no Brasil. É claro que com a evolução da epidemia essa história vai mudando. E também que a gente utilizou 427 sequências, isso era em torno de 0,5% do número de casos que a gente tinha na época. Com essas 427 amostras de 85 municípios de 21 Estados, o que a gente viu é que houveram mais de 100 entradas do vírus no nosso país. Pelo menos 104 pessoas entraram infectadas com o coronavírus no nosso país. Mas dessas 104 entradas, apenas três parecem ter levado a uma disseminação maior do vírus dentro do Brasil. Dessas três, uma delas representa a disseminação no Estado de São Paulo. A outra representa a disseminação do Sudeste brasileiro para o restante do Brasil, com entrada em vários Estados. E a terceira conta a história do vírus no Estado do Ceará. Na verdade, nem posso dizer Estado do Ceará porque naquela época só tínhamos amostras de Fortaleza, mas na época que a gente fez o estudo a epidemia realmente estava concentrada em Fortaleza. Então ela realmente contava a história da epidemia no Ceará naquele momento. Mostrou que o Ceará teve uma entrada do vírus que foi separada do restante do Brasil.

OP- Foi diferente?

Darlan – Exato. Não é que ela entrou em São Paulo e depois veio para o Ceará. Ela entrou diretamente no Ceará. Isso é o mais provável, com os dados que tínhamos na época, e ela permanece no Ceará. Ela não se espalhou pelo restante do Brasil.

OP – Por que aconteceram essas duas coisas: esse vírus ter ocorrido só no Ceará e por que ele não avança mesmo para um Estado vizinho?

Darlan – O primeiro ponto importante é a limitação de amostras do estudo em si. Nós tínhamos algumas amostras de outros Estados do Nordeste, mas não tantas. Talvez se a gente aumentar o número de amostras consiga perceber algumas entradas do vírus do Ceará em estados vizinhos, mas mostrou que o vírus estava bem concentrado no Ceará. O segundo ponto é que o Ceará é um Estado bem conectado com o exterior. Claro, não se compara a São Paulo e Rio, mas é. Era de se esperar que o Ceará fosse receber entradas de vírus chegando no Brasil. Outro ponto muito importante, tô analisando no contexto epidemiológico, não é um achado do estudo em si, é que o Ceará respondeu de forma muito rápida. Quando os primeiros casos foram diagnosticados no nosso Estado, na mesma semana já se fechou o comércio, escolas, toda a ação do governo. Isso muito provavelmente pode estar ligado ao fato de o vírus não ter se espalhado tanto, porque se começou a tentar conter a transmissão do vírus dentro do Estado. Pode estar relacionado a isso também. É muito interessante esse contexto do Ceará, de se ter essa entrada separada do vírus que a gente não observou ainda tanto em outros lugares.

OP- Isso ainda não é uma certeza? Vocês ainda estão analisando se realmente foi isso?

Darlan – A gente sabe que teve uma entrada separada no Ceará e que representa o Estado, mas dizer que o Ceará é o único que tem isso a gente não pode porque a gente precisa ter amostras de outros Estados.

OP – Vocês estão ampliando isso? Qual a fase atual da pesquisa?

Darlan – Nós continuamos sequenciando amostras do Brasil, mas ainda não conseguiu analisar esses novos dados. E existem várias perguntas ainda que nós precisamos responder.

OP – Por exemplo?

Darlan – (Risos) Ah, aí não posso te falar. Mas continuamos sequenciando amostras do Brasil e a gente vai olhar para algumas perguntas em específico. Talvez eu vá tentar dar uma olhada nessa questão do Ceará, principalmente pelo meu próprio interesse, mas por enquanto estamos trabalhando em várias fases diferentes.

OP – Essa questão reservada da pesquisa é normal? Por que há um cruzamento de informações e outro grupo de pesquisadores pode usar essa informação? É um sigilo normalmente seguido?

Darlan – Na verdade, o que temos feito nesse momento? A gente está liberando os dados de forma muito rápida. Nossas sequências foram liberadas muito rápidas. O estudo foi liberado antes de ser publicado na revista Science. Nesse momento a gente realmente está tentando fazer tudo muito rápido, mas não tem como eu discutir resultados que eu não consolidei ainda. Existem várias coisas nova que a gente está fazendo, mas que são análises em andamento. Se eu te falar agora alguma coisa posso estar falando algo que não tenho certeza ainda.

OP – Você imaginaria essa velocidade da ciência em outra época, não fosse a circunstância do coronavírus?

Darlan – Não. E é algo que nós como cientistas tivemos que nos adaptar. Por exemplo, um artigo para ser publicado na Science, uma das revistas de maior impacto científico no mundo, isso é um trabalho de um ano, um ano e meio. Até mais, dependendo da área que você está. E o período em que isso foi realizado pra gente foram três meses.

OP – Qual foi o tempo utilizado desde o sequenciamento até a publicação do artigo?

Darlan – Foi em torno de três, quatro meses. E ninguém estava preparado para isso acontecer. Nós passamos de uma realidade onde a gente conseguia trabalhar normalmente para uma realidade, no dia seguinte, onde fazíamos várias reuniões por dia. Reuniões com 40 pessoas no zoom, trabalhando em horários incríveis. Chega sequência nova, analisa de novo, confere se tá certo. Porque a gente tem que manter a qualidade do estudo. Não adianta correr com análises, tentar responder perguntas de forma rápida, mas sem qualidade naquilo que está fazendo. Quando você está trabalhando com algo que tem impacto imediato, você quer que saia o mais rápido possível.

OP – Vou entrar numa seara que talvez você não queira responder, mas é meu ofício: a vacina está indo nesse caminho, pulando etapas?

Darlan – Na verdade eu não trabalho com a vacina, então não tenho como dizer qual o procedimento que eles estão fazendo. Acompanho tanto quanto vocês, o que vai saindo na mídia sobre os estudos. Não acredito que estejam pulando etapas que sejam importantes porque nós, como cientistas, sabemos o quanto é importante a qualidade e a segurança de uma vacina. Mas realmente não é a minha área, não tô trabalhando com isso.

OP – Então quero voltar para sua área, você comentou isso em uma resposta anterior: o vírus já mudou muito, já tem novas linhagens descobertas nesses meses de pandemia? Ele é muito mutante?

Darlan – O vírus muta rápido, mas não é com frequência tão alta assim. A gente estima que o vírus mute duas vezes por mês.

OP – Isso é normal?

Darlan – Sim. É importante falar que a mutação é um processo natural. Ela vai acontecer e acontece com qualquer ser vivo. Por exemplo, quando a gente está falando de câncer, ele é causado por uma mutação em nossas células. Então nosso organismo também muta. A diferença do vírus é que ele muta muito mais rápido do que a gente. A grande quantidade dessas mutações que ocorrem nos vírus não têm impacto nenhum, não muda nada para o vírus. A mutação é um processo aleatório, é como se o vírus mudasse de um chapéu azul para um vermelho. A maioria dessas mudanças realmente não tem impacto nenhum. Ocasionalmente, uma dessas mutações pode ter impacto e aumentar a transmissão, aumentar a gravidade. Existe uma mutação que aconteceu lá no começo que se acredita que tenha impacto na transmissão do vírus. Mas essa é a única discussão que a gente tem no momento com relação a mutações importantes.

OP – O que é mais diferente nesse vírus, para vocês cientistas, que tentam decifrá-lo? No que ele se distingue em relação a outros?

Darlan – Não é que ele é tão diferente. É um pouco das características dele e o contexto em que ele acontece que fez possível causar uma pandemia. É mais relacionado à transmissão do vírus em si. Ele é um vírus respiratório, que tem transmissão muito mais fácil e passa rápido de pessoa para pessoa. Isso é que realmente faz com que ele seja um vírus com potencial para causar a pandemia que estamos vendo agora.

OP – Ele é semelhante, mas consegue se espalhar mais?

Darlan – Ele tem transmissão mais fácil, que mata, mas não mata tanto. Se você tem um vírus que mata uma alta porcentagem da população, ele se extingue rápido porque mata todo mundo.

OP – A partir do que você sabe em relação ao poder de transmissão do vírus, e se estivesse numa mesa de decisões, como opinaria em relação a situações, por exemplo, como a volta de público aos estádios, circulação de pessoas nas ruas, menor distanciamento, menor isolamento social? As flexibilização das medidas restritivas, acha que está no momento certo para liberar?

Darlan – É difícil falar porque se você compara dois países, a realidade é completamente diferente. Num país do tamanho do Brasil, a realidade de cada município é diferente. A reabertura tem que acontecer em algum momento, mas claro que isso tem que ser feito tomando-se medidas de precaução para diminuir a transmissão do vírus e evitar uma segunda onda, evitar que tenhamos maior número de mortes. É preciso ter uma coordenação do governo com a população, para que essa população entenda que também é parte da resposta. É importante cada um usar máscara, manter o distanciamento social, lave sempre as mãos, evite sair de casa o máximo possível e que o governo também entre com suas ações. Para que as pessoas possam voltar a trabalhar com segurança, voltar às escolas, mas com segurança. É esse conjunto e cada município vai ter uma realidade diferente e todos esses aspectos têm que ser levados em consideração.

OP – O que mais a ciência está correndo para tentar descobrir do coronavírus?

Darlan – É principalmente em relação ao que a gente chama de imunidade protetora. Depois que você se infecta com o vírus, quanto tempo a imunidade realmente protege contra uma nova infecção. Esse é um dos principais pontos, que vai ser importante também para o estudo da vacina. Se eu peguei o coronavírus, estou protegido de uma nova infecção e por quanto tempo? É isso que a gente tá tentando descobrir. Não o nosso grupo em específico, porque não é minha área, mas para a ciência em geral essa é uma das principais perguntas.

OP – Aquelas perguntas feitas lá no início, da origem do vírus, se veio de carne de morcego ou se foi feito em laboratório, isso já é questão superada?

Darlan – Não, isso também é algo que está sendo discutido, mas acho que para esse momento específico, o mais importante que a gente precisa saber agora é com relação à proteção do vírus em si. Para a gente saber como vai viver daqui pra frente, como a gente vai conseguir lutar contra o vírus.

OP – O que você pretende fazer quando voltar ao Brasil? E quando você volta? E o retorno ao Ceará especificamente?

Darlan – Você quer saber de voltar definitivamente ou voltar para visitar?

OP – (Risos) O que você puder encaixar na resposta.

Darlan – Voltar para visitar pretendo para logo.

OP – Faz quanto tempo que você não vem?

Darlan – Eu estava aí em janeiro.

Terra Natal

OP – Você então quase não voltou para o Reino Unido por causa da pandemia?

Darlan – Eu quase fiquei. Saí do Brasil no final de janeiro. Eu quero muito ver minha família porque já faz muito tempo que não vejo. E muito tempo numa situação tão perigosa, numa situação tão difícil. Então é claro que a gente fica mais emotivo, sente falta de casa, tá preocupado com os familiares. Então a primeira coisa que quero fazer é visitar minha família. Voltar para o Brasil, eu pretendo sim, ainda não sei quando. Porque o principal ponto pra mim sempre foi também tentar devolver para o Brasil aquilo que eu recebi. Estudei em universidade pública, tive bolsa, fiz mestrado em universidade pública. Hoje já não dependo do Brasil, os meus estudos são pagos pela Universidade de Oxford, mas a minha vontade é poder voltar para ajudar a população local. Que eu sinto que já faço, já tô tentando fazer daqui, de longe, mas quero voltar e fazer daí.

OP – E em Quixeramobim, quando você for lá? Li que perguntaram se você estava famoso e você riu. Como acha que vai ser recebido depois do seu feito?

Darlan – Essa é uma pergunta difícil porque estou aqui na Inglaterra, acompanho o que sai na mídia, mas o meu dia a dia não mudou. Apesar das entrevistas, não mudou. Quando fala “ah, você tá famoso aqui no Brasil”, eu tô (franze a testa, sinalizando dúvida)? Pois tá (risos). Muitas pessoas de Quixeramobim já vieram falar comigo. Acho que vou ser muito bem recebido, como sempre fui. Sempre ótima relação com meus amigos, a população de Quixeramobim. É um lugar e uma bandeira que levo para todo lugar. O pessoal pergunta de onde sou, falo Quixeramobim, e perguntam onde fica. Ali no Nordeste brasileiro. Mas acho importante falar Quixeramobim para que as pessoas entendam de onde você vem. E para as pessoas que te assistem saber que essas pessoas existem, que a gente é capaz, só precisa realmente de oportunidade. Mas sinto muito falta dos amigos, da família. Quero muito comer baião de dois (risos). Tento fazer aqui, mas não sai a mesma coisa. Queijo coalho, cuscuz (risos)… e eu realmente espero ser recebido bem, na medida do possível com o distanciamento social.

OP – Você teve Covid?

Darlan – Não.

OP – Qual você acha que será o legado dessa doença? O que as pessoas aprenderam disso tudo, cientificamente e em comportamento?

Darlan – Cientificamente acho que a gente avançou muito no nosso conhecimento sobre surtos e epidemias em geral. Também está sendo um momento de mais colaborações, internacionais e nacionais, e o quanto o papel da colaboração é importante para a pesquisa científica e para o desenvolvimento e inovação. Como população em si, acho que mais a questão de quanto a gente é responsável pela vida do outro. Questão de responsabilidade, saber que você tem que trabalhar em conjunto para poder chegar a um bem maior, mesmo que diretamente você não seja afetado por isso. Principalmente população jovem, que se infecta e pode não ter sintomas mais graves, mas que também é responsável pela população mais velha, que vão ter efeitos maiores. Espero que esse seja um aprendizado e que a gente se prepare para a possibilidade de uma nova pandemia acontecer no futuro. Que a gente esteja preparado para ter essas respostas. Se essas coisas acontecerem, numa próxima a gente vai estar melhor.

OP – Você quer pontuar mais alguma coisa?

Darlan – Sim. Um dos maiores ganhos que estamos tendo nessa pandemia é o espaço para a divulgação da ciência, para que a população entenda o quanto a ciência é importante nas nossas vidas. Infelizmente, muitas vezes esse papel não está tão claro. Quando a gente liga a televisão, ela veio de um processo de estudo. A comida que chega até nós também passa primeiro por um processo científico, para melhorar a qualidade e tudo mais. Tudo isso está no nosso dia a dia e muitas vezes a gente não percebe. Às vezes precisa de algo dessa magnitude para a gente entender o quanto a ciência é importante e o quanto o cientista também trabalha para tentar responder a essas perguntas que são tão complicadas.

OP – Você viveu de bolsas como estudante e tem uma universidade bancando a sua vida de cientista. Houve um baque grande na ciência brasileira, com redução de recursos. A pandemia também evidenciou o quanto existe de ciência de primeira linha sendo desenvolvida no Brasil. Mostrou que a ciência brasileira está andando, apesar de tudo.

Darlan – Exato. É uma coisa que aprendi a dar valor muito mais quando cheguei aqui fora. Nós brasileiros são muito inteligentes, muito bons e pesquisadores excelentes, só não temos tantos recursos. E agora a gente tem menos recursos ainda. Você vê a mobilização da comunidade científica, não só para continuar a fazer ciência, mas para ajudar a população nesse momento com o que a gente sabe. Você vê as universidades públicas brasileiras fazendo teste de coronavírus para auxiliar os laboratórios do governo. Como população, acho que a gente tem que começar a valorizar também aquilo que é público. Não só a universidade, mas também o SUS (Sistema Único de Saúde). Imagina o quão não teria sido pior a situação se a gente não tivesse o SUS? Quando chegar uma vacina que vai ser distribuída para a população toda, vai ser pelo SUS. A gente tem que valorizar aquilo que é gratuito, que é nosso e tem que entender que esses investimentos são importantes. Porque é a única forma de a gente desenvolver o nosso país, através do investimento na educação e na inovação. Quando a gente tira isso é um atraso muito grande. E esse atraso pode ser que você não recupere tão cedo. Quando você para, para voltar é muito mais difícil. A gente tem que valorizar o que é público e entender que o que é público não está garantido para sempre. É dar valor.

PELO ZOOM

A entrevista com Darlan Cândido foi feita no último dia 25/9 por aplicativo de videoconferência. O POVO havia tentado falar com ele antes, para a data em que se completaram seis meses do primeiro óbito pela Covid no Ceará, mas não foi possível.

SEM COVID

Darlan não contraiu a Covid-19. A Inglaterra, onde mora, é um dos países da Europa com maior número de casos e onde foi determinada nova fase de medidas restritivas para a população.

GRANDE PESQUISA

A pesquisa sintetizada no artigo científico de Darlan Cândido teve a participação de 15 instituições brasileiras (universidades, laboratórios), do Imperial College de Londres e da Universidade de Oxford – que banca seu doutorado.

Fonte: O Povo Online e panoramafarmaceutico


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